Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Presenciar um familiar amado tomar decisões financeiras arriscadas, assumir comportamentos impulsivos sem medir consequências ou abandonar empregos e projetos do dia para a noite é uma experiência dolorosa e assustadora para qualquer família.
Muitas vezes, a impulsividade severa — seja na forma de compras desmedidas, condutas sexuais de risco ou decisões profissionais impensadas — é interpretada como falta de responsabilidade, egoísmo ou mudança de caráter. No entanto, sob a perspectiva da Neuropsicologia e da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esses comportamentos são sintomas clássicos de fases de elevação de humor (hipomania e mania) no Transtorno Bipolar.
Entender o que acontece no cérebro durante esses episódios é o primeiro passo para sair do ciclo de julgamentos e brigas e construir uma rede de proteção eficiente e acolhedora.
Para compreender a impulsividade no Transtorno Bipolar, é útil imaginar o cérebro equipado com um acelerador e um freio de mão.
Em condições normais de estabilidade emocional (eutimia), o nosso córtex pré-frontal funciona como o "freio de emergência": é ele quem avalia os riscos, pondera o impacto de uma atitude no futuro e nos faz refletir antes de gastar dinheiro, expor relacionamentos ou tomar uma atitude precipitada.
Contudo, durante um episódio de hipomania ou mania, duas alterações profundas ocorrem na neurobiologia:
Hiperativação do Sistema de Recompensa: O cérebro fica hipersensível à dopamina, gerando uma busca compulsiva por prazer e gratificação imediata. A sensação de recompensa parece gigantesca e irresistível.
Falha no Freio Inibitório: O córtex pré-frontal sofre uma redução temporária na sua capacidade de controle. O alarme de perigo e a percepção de risco ficam praticamente desligados.
O resultado dessa combinação é uma pessoa operando com um motor extremamente acelerado e sem freio de mão. A impulsividade financeira, sexual ou profissional não é uma escolha consciente para ferir a família; é a consequência de uma tempestade neuroquímica que cega o julgamento crítico.
Os comportamentos impulsivos podem surgir de forma repentina e variam de pessoa para pessoa, mas costumam seguir padrões identificáveis:
Impulsividade Financeira: Compras compulsivas de itens desnecessários, doações desmedidas, abertura de dívidas em cartões de crédito, apostas altas ou investimentos de altíssimo risco sem qualquer planejamento.
Impulsividade Profissional: Pedidos de demissão repentinos sem reserva financeira, abertura de negócios inviáveis da noite para o dia, brigas graves com chefes ou clientes por excesso de confiança.
Impulsividade Social e Sexual: Engajamento em condutas de risco, exposição em redes sociais, quebra de acordos relacionais e busca desmedida por novidades.
Quando o episódio de aceleração passa e o humor se estabiliza (ou cai para uma fase depressiva), o indivíduo frequentemente é tomado por um sentimento devastador de vergonha, culpa e desespero ao se deparar com os prejuízos acumulados.
Lidar com a impulsividade de um familiar exige equilíbrio entre proteção e acolhimento. A Terapia Cognitivo-Comportamental orienta algumas estratégias fundamentais para a família:
Não Confrontar Durante a Aceleração: Tentar argumentar de forma agressiva ou provar que a pessoa está errada no auge do episódio tende a aumentar a irritabilidade e o afastamento.
Estabelecer Travas de Segurança em Momentos de Estabilidade: O melhor momento para construir regras de proteção financeira e pessoal é quando a pessoa está bem. Acordos prévios sobre limites de cartão e co-gestão de contas são atos de amor e prevenção.
Observar os Primeiros Sinais (Pródromos): Geralmente, a impulsividade é precedida pela redução da necessidade de sono e pela aceleração da fala. Identificar esses sinais no início permite acionar o médico e o psicólogo antes que os grandes prejuízos ocorram.
A psicoterapia não atua apenas na fase de crise, mas principalmente na prevenção de novos episódios. Através da psicoeducação estruturada, o paciente aprende a reconhecer os gatilhos da aceleração e a desenvolver estratégias de autorregulação.
Para a família, o acompanhamento psicológico oferece orientação técnica sobre como manejar comportamentos difíceis, reduzindo a sobrecarga e fortalecendo o vínculo afetivo.
Se você convive com um familiar que apresenta oscilações intensas e decisões impulsivas que comprometem a rotina da casa, saiba que há um caminho científico, humano e seguro para proteger quem você ama.
________________________________________________________________
Nota da Profissional: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo.
Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Especialista em TCC e Transtornos de Humor.
Atendimento Presencial e Online.