Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Chegamos à última semana do ano e, com ela, surge uma pressão social invisível, mas esmagadora: a obrigação de se tornar "uma nova versão de si mesmo" assim que o relógio marcar meia-noite. Para quem convive com a depressão ou transtornos de ansiedade, esse otimismo compulsório pode soar não apenas falso, mas profundamente doloroso.
Como psicóloga, convido você a olhar para este encerramento de ciclo sob a lente da ciência, e não apenas da expectativa social.
Do ponto de vista da Neuropsicologia, o nosso cérebro é "programado" para procurar padrões e segurança. Mudanças drásticas e repentinas são interpretadas como ameaças, o que explica por que a maioria das resoluções de ano novo é abandonada ainda em fevereiro.
Para compreendermos essa resistência, precisamos olhar para o Sistema Límbico. Conhecido como o "centro emocional" do cérebro, ele é um conjunto de estruturas (como a amígdala e o hipocampo) responsável pelas nossas emoções, comportamentos sociais e, principalmente, pelo nosso sistema de sobrevivência.
Enquanto o seu lado racional deseja a mudança, o sistema límbico prefere o que é familiar, pois o conhecido representa segurança. Quando você tenta mudar tudo de uma vez, essa área do cérebro pode "disparar" sinais de estresse, sabotando os seus esforços antes mesmo de começarem. A verdadeira mudança não acontece num salto, mas na reestruturação gradual de hábitos e caminhos neurais.
Para quem enfrenta a depressão, o balanço do ano pode ser injusto. A depressão atua como um filtro que apaga as suas vitórias e hipervaloriza o que ficou por fazer. É comum sentir que o ano foi "perdido" ou que não houve progresso. No entanto, a sua maior conquista em 2025 pode ter sido algo invisível para os outros:
Ter mantido a constância na medicação e na terapia.
Ter levantado da cama naqueles dias em que a gravidade parecia dobrada.
Ter sobrevivido a 100% dos seus dias difíceis.
Em vez de promessas vagas, a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) sugere a Autocompaixão e o uso de metas estruturadas através do método SMART. Para que as suas metas saiam do campo das intenções e se tornem realizáveis, cada letra deste método funciona como um filtro:
S (Específica): O que você quer exatamente? Em vez de "quero ser mais saudável", tente "quero caminhar 20 minutos".
M (Mensurável): Como você vai saber que conseguiu? Defina números ou evidências claras (ex: "3 vezes por semana").
A (Atingível): Seja honesto com você mesmo. A meta é realista para a sua rotina atual ou está gerando ainda mais ansiedade?
R (Relevante): Por que isso importa para você agora? A meta deve fazer sentido para a sua vida, não para agradar aos outros.
T (Temporal): Qual é o prazo? Estabeleça uma data de início e uma frequência, criando um compromisso com o calendário.
Nesta passagem de ano, o meu convite como sua "Psi" é: substitua a performance pela presença. Se o seu objetivo para 2026 for simplesmente manter a sua estabilidade emocional e cuidar da sua saúde mental um dia de cada vez, isso já é extraordinário.
Respeite o seu sentimento se a virada trouxer angústia em vez de esperança. O dia 1º de janeiro é apenas o dia seguinte ao dia 31. Comece devagar. A constância ganha sempre da intensidade.
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Nota da Profissional: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo. O manejo do Transtorno Bipolar deve ser sempre acompanhado por uma equipe multidisciplinar (Psicólogo e Psiquiatra). Se você sente que seu humor está oscilando além do esperado, busque ajuda especializada.
Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Especialista em TCC e Transtornos de Humor.