Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Durante muito tempo, acreditou-se que o cérebro adulto era um órgão estático — uma máquina cujas engrenagens, uma vez danificadas pela depressão ou pelo trauma, dificilmente recuperariam sua forma original. Hoje, a neurociência moderna e a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) nos mostram uma realidade muito mais dinâmica e esperançosa: a Neuroplasticidade.
Se você convive com um transtorno de humor, entender o que acontece "sob o capô" é o primeiro passo para reduzir a culpa e aumentar a adesão ao tratamento.
A depressão não é apenas um "sentimento"; é um estado de neurotoxicidade e baixa resiliência neural. Em quadros depressivos persistentes ou episódios recorrentes de transtorno bipolar, observamos alterações biológicas específicas:
Atrofia do Hipocampo: Esta área, responsável pela memória e regulação emocional, pode sofrer uma redução de volume.
A Queda do BDNF: O Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (BDNF) funciona como um "fertilizante" para os neurônios. Na depressão, os níveis dessa proteína despencam, dificultando a criação de novas conexões e a sobrevivência das células cerebrais existentes.
Hipoatividade do Córtex Pré-Frontal: A área que deveria "frear" seus impulsos e organizar seus pensamentos fica enfraquecida, deixando o caminho livre para a amígdala (o centro do medo) dominar suas reações.
Muitos pacientes perguntam: "Dra., como apenas conversar pode mudar a biologia do meu cérebro?". A resposta reside na repetição e na reestruturação.
A TCC atua através do princípio de que "neurônios que disparam juntos, conectam-se". Ao praticar a reestruturação cognitiva — o ato de identificar, questionar e substituir pensamentos disfuncionais —, você está, literalmente, forçando o seu cérebro a trilhar novos caminhos neurais.
Reativação de Áreas Inativas: Através da Ativação Comportamental, forçamos o sistema de recompensa (dopaminérgico) a voltar a disparar, combatendo a anedonia.
Fortalecimento do Córtex: O treino de habilidades cognitivas fortalece as conexões do córtex pré-frontal, permitindo que você tenha mais controle sobre as respostas automáticas da ansiedade.
Aumento do BDNF: Estudos sugerem que a mudança de comportamento e o aprendizado de novas formas de lidar com o estresse elevam a produção de BDNF, ajudando o cérebro a se autorreparar.
Embora a medicação seja, muitas vezes, o "andaime" que sustenta o cérebro quimicamente, a terapia é a "reforma estrutural". A medicação pode criar o ambiente químico favorável, mas é a TCC que ensina o cérebro a utilizar esse ambiente para construir padrões de pensamento mais saudáveis e resilientes.
Entender que a depressão tem uma base biológica retira o peso da "falta de força de vontade", mas entender a neuroplasticidade devolve a você o protagonismo. O cérebro que você tem hoje não precisa ser o mesmo cérebro que você terá daqui a seis meses de tratamento.
A plasticidade é a prova de que a mudança é fisicamente possível.
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Nota da Profissional: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo.
Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Especialista em TCC e Transtornos de Humor.