Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
O Carnaval no Brasil é, culturalmente, o marco de um novo ciclo. Mas, enquanto o mundo parece ligar o motor na potência máxima após a Quarta de Cinzas, muitas pessoas experimentam o inverso: uma sensação de "vazio", irritabilidade ou um desânimo que parece não ir embora nem com uma boa noite de sono.
Se você convive com a ansiedade ou com um transtorno de humor (como Depressão ou Transtorno Bipolar), esse período de "retomada" pode ser particularmente desafiador. Não se trata apenas de preguiça ou falta de foco; existe uma explicação biológica e cognitiva para essa "ressaca emocional".
Nosso cérebro busca constantemente a homeostase (o equilíbrio). Durante feriados prolongados, somos expostos a uma quebra drástica de rotina: mudanças na alimentação, consumo de álcool, excesso de estímulos visuais e sonoros, e interações sociais intensas.
Para o sistema nervoso, isso é uma montanha-russa química. O cérebro produz picos de dopamina e cortisol para dar conta da novidade e do agito. Quando a festa acaba e o silêncio volta, ocorre o que chamamos de "vale" neuroquímico. A queda brusca desses neurotransmissores pode gerar um estado de letargia e tristeza que a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) identifica como um gatilho para pensamentos depressivos.
Frequentemente negligenciamos o sono durante os feriados, mas ele é o pilar mestre da regulação emocional. É durante o sono REM que o nosso cérebro faz a "faxina" das emoções do dia, processando o que vivemos e estabilizando a nossa reatividade para o dia seguinte.
Quando desregulamos o nosso ritmo circadiano (o nosso relógio biológico), o cérebro perde a capacidade de "frear" a amígdala — a região responsável pelo medo e pela ansiedade. É por isso que, na semana seguinte ao feriado, tudo parece mais difícil, os problemas parecem maiores e a nossa paciência parece menor.
Cognitivamente, o final do Carnaval traz a crença de que "agora não tenho mais desculpas". Esse pensamento automático gera uma pressão interna imensa para recuperar o tempo perdido e cumprir todas as metas de 2026 de uma só vez.
Na TCC, observamos que essa cobrança excessiva ativa o nosso sistema de ameaça, aumentando a ansiedade e, paradoxalmente, levando à procrastinação por medo de não dar conta.
Se você sente que o seu humor ainda não "entrou nos trilhos", tente estas abordagens:
Higiene do Ritmo Social: Volte a ter horários fixos. O cérebro com vulnerabilidade ao humor precisa de previsibilidade. Acordar, comer e dormir nos mesmos horários é um sinal de segurança para o seu sistema nervoso.
Ativação Comportamental: Não espere a "vontade" chegar para agir. A motivação é o resultado da ação, não a causa. Comece com tarefas minúsculas e celebre a conclusão de cada uma.
Questione o seu diálogo interno: Quando o pensamento "eu deveria estar produzindo mais" surgir, substitua-o por "eu estou em um processo de readaptação e vou focar no que é possível hoje".
Sentir-se exausto ou com o humor oscilante após um período de grande agitação é um sinal de que sua mente está tentando se recalibrar. Se essa sensação persistir por mais de duas semanas e prejudicar sua funcionalidade, pode ser o momento de buscar ajuda profissional para ajustar os seus estabilizadores — sejam eles terapêuticos, de estilo de vida ou medicamentosos.
O ano não é uma corrida de cem metros, mas uma maratona. Respeitar o seu ritmo de largada é o primeiro passo para chegar bem ao final do percurso.
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Nota da Profissional: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo.
Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Especialista em TCC e Transtornos de Humor.