Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Você já sentiu o coração acelerar do nada, o peito apertar, uma falta de ar incomoda ou as mãos formigarem sem motivo aparente?
Quando a ansiedade chega, ela raramente avisa. Na maioria das vezes, não começa com um pensamento claro de medo, mas sim com uma sensação física intensa no corpo. É muito comum que o primeiro impulso seja buscar uma emergência médica, fazer exames do coração ou investigar problemas de saúde. E quando todos os exames mostram que está tudo perfeito, surge a dúvida e a frustração: "Se o meu corpo está saudável, por que sinto tudo isso com tanta força?"
Como psicóloga clínica, vejo diariamente pessoas exaustas tentando entender o que acontece dentro de si. A verdade é que o seu corpo não está "quebrado" e você não está perdendo o controle. O que você sente é uma reação real e biológica do seu organismo tentando te proteger.
Neste artigo, vou te explicar de forma simples e acolhedora o que acontece no seu corpo e na sua mente durante a ansiedade, além de te mostrar passos práticos da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para recuperar o seu bem-estar.
Para entender os sintomas físicos, precisamos olhar para a forma como o nosso cérebro foi construído. A ansiedade não é um defeito, mas sim um sistema de proteção muito antigo e inteligente chamado de resposta de "luta ou fuga".
Imagine que nossos ancestrais precisavam reagir em frações de segundo ao encontrar um animal perigoso na natureza. Diante do perigo, o cérebro precisava preparar o corpo para duas ações imediatas: lutar ou correr.
No nosso cérebro, existe uma pequena estrutura que funciona como um "alarme de incêndio" (a amígdala cerebral). Quando esse alarme dispara, ele avisa o corpo inteiro para se preparar para o perigo. Imediatamente, o organismo libera hormônios do estresse, como a adrenalina e o cortisol, que mudam o funcionamento do coração, da respiração e dos músculos.
O ponto principal é que o nosso cérebro moderno nem sempre diferencia um perigo real (como um assalto) de uma ameaça emocional ou mental (como uma preocupação com o trabalho, uma conta para pagar ou um pensamento ruim). Quando o alarme dispara por uma preocupação, o corpo reage com a mesma intensidade física de quem precisa correr de um perigo real.
Cada sensação física que você sente durante a ansiedade tem uma explicação direta e um motivo de existir. Vamos entender as mais comuns:
Coração Acelerado e Palpitações
Quando a adrenalina entra na circulação, o coração precisa bater mais rápido e forte. O objetivo original é enviar mais sangue e oxigênio para as pernas e braços, preparando os músculos para correr ou se defender. Quando você está parado no trabalho ou em casa, sente esse esforço como um baque forte ou um aperto no peito.
Falta de Ar e Respiração Curta
Diante do alerta, a sua respiração fica mais rápida para puxar mais ar. Porém, como você não está correndo de fato, acaba puxando mais oxigênio do que precisa e soltando o ar rápido demais. Isso altera a mistura de gases no sangue e causa tontura, sensação de cabeça leve e uma falsa impressão de que "o ar não está chegando aos pulmões".
Tensão Muscular e Dores no Corpo
Os seus músculos se contraem para ficar prontos para o impacto ou para a ação. Quando a ansiedade dura dias ou semanas, os ombros, o pescoço, as costas e o maxilar ficam rígidos por muito tempo, gerando dores musculares e dores de cabeça por tensão.
Enjoo e Nó no Estômago
Durante um momento de emergência, o corpo entende que digerir a comida não é importante. Por isso, ele diminui o fluxo de sangue no estômago e no intestino para enviar energia aos músculos. Essa mudança rápida provoca náuseas, sensação de embrulho, cólicas ou urgência para ir ao banheiro.
Mãos Frias e Formigamento
Para proteger os órgãos vitais no centro do corpo, o cérebro fecha levemente os vasos sanguíneos das extremidades (mãos, pés e pele). Isso reduz a circulação na ponta dos dedos, causando aquela sensação de mãos geladas, dormência ou formigamento.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), descobrimos que o maior sofrimento da ansiedade não é apenas a sensação física em si, mas a forma como interpretamos essa sensação.
Funciona como um ciclo transparente:
O Gatilho: Uma preocupação discreta ou uma mudança física simples (como subir uma escada e sentir o coração bater mais rápido).
A Sensação: Você nota o coração acelerado ou uma leve tontura.
O Pensamento Alarmista: A mente pensa imediatamente: "E se eu estiver tendo algo grave?", "E se eu desmaiar?", "Vou perder o controle".
O Aumento do Medo: O cérebro entende esse pensamento como uma confirmação de perigo e dispara ainda mais adrenalina.
A Intensificação dos Sintomas: O coração bate ainda mais rápido e a falta de ar aumenta, parecendo comprovar que o pensamento inicial estava certo.
Esse ciclo cria uma vigilância constante. A pessoa passa a observar o próprio corpo o tempo todo, com medo da próxima sensação, o que deixa o sistema de alarme sempre ligado.
A boa notícia é que esse sistema de alarme pode ser reeducado. A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece ferramentas práticas para você retomar a segurança no seu dia a dia:
A. Acolher a Sensação (Aprender que Ela É Inofensiva)
A primeira virada de chave é entender que as sensações da ansiedade são extremamente desconfortáveis, mas não são perigosas. Elas têm um começo, um pico e um fim natural.
B. Respiração Tranquila e Lenta
Aprender a respirar de forma mais profunda, expandindo a barriga e soltando o ar bem devagar, manda um sinal direto de volta para o cérebro dizendo: "A emergência passou, podemos nos acalmar". Isso reduz os batimentos cardíacos gradativamente.
C. Questionar os Pensamentos Assustadores
Quando o pensamento catastrófico surgir, aprenda a fazer perguntas gentis a si mesmo: "Eu já senti isso antes e passou?", "O que os exames médicos confirmaram sobre a minha saúde?", "Isso é um perigo real agora ou apenas ansiedade?"
D. Voltando para o Presente
Em vez de focar toda a atenção no que está acontecendo dentro do seu corpo, desvie o olhar para o ambiente ao seu redor. Repare em objetos visíveis, nos sons do ambiente ou nas texturas ao seu toque. Isso ajuda a desligar o foco no sintoma.
Sentir os sintomas físicos da ansiedade pode ser assustador, mas lembre-se: o seu corpo está apenas tentando te proteger, da forma como aprendeu. Ele não é seu inimigo e não está falhando.
Quando você compreende o que está acontecendo e aprende a responder a esses sinais com acolhimento e técnicas certas, o alarme vai se acalmando e a paz volta a fazer parte da sua rotina.
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Nota da Profissional: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo.
Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Especialista em TCC e Transtornos de Humor.
Atendimento Presencial e Online.