Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Você já se pegou deitada na cama, exausta após um dia longo, mas com a mente funcionando a mil por hora? Talvez repassando aquela frase que disse em uma reunião, ou tentando entender por que se sentiu tão desconfortável em um encontro social, ou ainda, prevendo catástrofes para a próxima segunda-feira.
Muitas pessoas acreditam que esse hábito de "pensar muito" é uma forma de buscar soluções. No entanto, na psicologia clínica, damos a esse processo um nome bem diferente: Ruminação. E, ao contrário do que parece, ruminar não resolve problemas — ele os alimenta.
A metáfora mais precisa para a ruminação é a de um disco riscado. É um padrão de pensamento repetitivo, passivo e focado no sofrimento. Diferente da reflexão saudável, a ruminação não tem um ponto de chegada; ela é um processo circular onde você foca nas causas e consequências do seu mal-estar, mas nunca na solução.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), entendemos a ruminação como uma estratégia de "esquiva emocional". Ruminamos porque, lá no fundo, nossa mente acredita que, se pensarmos o suficiente, teremos controle sobre o que aconteceu ou o que virá. O resultado? Mais ansiedade e um terreno fértil para a depressão.
Como psicóloga, gosto de explicar o que acontece "sob o capô". Nosso cérebro possui uma rede chamada Rede de Modo Padrão (DMN). Ela é ativada quando não estamos focados em uma tarefa externa — ou seja, quando estamos "olhando para dentro".
Em pessoas com transtornos de ansiedade ou episódios depressivos, essa rede torna-se hiperativa. É como se o cérebro ficasse preso em um loop de autorreferência. Enquanto você rumina, áreas responsáveis pelas suas Funções Executivas (como o planejamento e o foco) acabam ficando exaustas. É por isso que, depois de uma crise de ruminação, você se sente fisicamente drenada e com dificuldade de concentração. Você gastou toda a sua "bateria mental" em um labirinto sem saída.
Saber diferenciar os dois é o primeiro passo para a mudança. Veja a diferença:
Reflexão Saudável: É focada no "como". Exemplo: "O que eu posso fazer de diferente na próxima vez para me sentir melhor?" (Gera ação e aprendizado).
Ruminação: É focada no "por que". Exemplo: "Por que eu sempre estrago tudo? Por que eu sou tão ansiosa?" (Gera culpa e paralisia).
Se você se sente presa nesse labirinto hoje, aqui estão três estratégias técnicas para começar a desarmar esse mecanismo:
Dê nome ao processo: No momento em que perceber o pensamento circular, diga para si mesma: "Eu não estou resolvendo um problema, eu estou apenas ruminando". Essa pequena distância (que chamamos de metacognição) tira a força do pensamento.
A Regra dos 2 Minutos: Se você está pensando em algo há mais de 2 minutos e não chegou a nenhuma solução prática, pare. O seu cérebro entrou em modo de ruminação. É hora de mudar o estímulo.
Ativação Comportamental: A ruminação adora a passividade. Se você está deitada ruminando, levante-se. Vá lavar o rosto, organize uma gaveta ou faça uma caminhada curta. Mudar o estado do corpo ajuda a mudar o foco do cérebro.
Pensar demais não é um sinal de inteligência emocional, é um sintoma de que sua mente está sobrecarregada e tentando se proteger da forma errada. O labirinto da ruminação é profundo, mas ele tem saída.
Através da união entre o entendimento das suas funções cerebrais (Neuropsicologia) e a mudança de hábitos mentais (TCC), é possível silenciar esse "barulho" e retomar o controle da sua paz.
Se você sente que seus pensamentos se tornaram seus piores inimigos, saiba que o acompanhamento especializado pode te dar as ferramentas para desligar esse disco riscado de uma vez por todas.
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Nota da Profissional: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo.
Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Especialista em TCC e Transtornos de Humor.
Atendimento Presencial e Online.