Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Você já teve a sensação de que, mesmo em um momento de lazer ou descanso, sua mente continua "escaneando" o horizonte em busca de problemas? É como se houvesse um radar ligado 24 horas por dia, tentando prever o que pode dar errado na próxima segunda-feira, no próximo mês ou na próxima conversa difícil.
Na psicologia clínica, chamamos esse estado de Hipervigilância. E, se você convive com a ansiedade, sabe que esse é um dos sintomas mais exaustivos de se carregar.
Originalmente, a hipervigilância é um mecanismo de defesa biológico. Em situações de perigo real, nosso cérebro aumenta a sensibilidade aos estímulos para garantir nossa sobrevivência. O problema surge quando esse "alarme" fica travado na posição "ligado", mesmo quando estamos seguros em nosso sofá.
Para quem sofre de Transtornos de Ansiedade ou episódios de Depressão com características ansiosas, o mundo passa a ser percebido como um lugar constantemente hostil. A pessoa não relaxa porque, inconscientemente, acredita que, se baixar a guarda, algo terrível acontecerá.
Muitos pacientes relatam que sentem a necessidade de "pensar em tudo" para estarem preparados. Existe uma crença disfuncional de que a preocupação é útil. A lógica (equivocada) da mente ansiosa é: "Se eu me preocupar bastante agora, eu não serei pego de surpresa depois".
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), entendemos que isso é uma ilusão de controle. A preocupação antecipatória não resolve o problema futuro, ela apenas rouba a energia que você precisaria para viver o presente. O resultado é o que discutimos recentemente: uma exaustão emocional profunda que o sono comum não consegue curar.
Quando a mente vive em hipervigilância, o custo biológico é alto. O cérebro consome uma quantidade imensa de glicose e oxigênio para manter esse estado de alerta. Os sinais claros são:
Dificuldade de concentração (a mente está sempre "em outro lugar").
Irritabilidade com pequenos ruídos ou interrupções.
Tensão muscular constante (ombros e mandíbula travados).
A sensação de que o descanso é uma "perda de tempo" ou gera culpa.
O tratamento não consiste em "forçar-se a relaxar" — o que geralmente gera ainda mais ansiedade. O trabalho clínico foca em:
Reestruturação Cognitiva: Desafiar a crença de que a preocupação te protege. Precisamos mostrar ao seu cérebro, com evidências, que você pode lidar com os imprevistos sem precisar sofrer por eles antecipadamente.
Treino de Atenção Plena: Ensinar a mente a voltar para o "aqui e agora" através de técnicas comportamentais, diminuindo o tempo gasto em cenários hipotéticos catastróficos.
Exposição ao Desconforto: Aprender a tolerar a incerteza. A liberdade mental surge quando aceitamos que não podemos controlar tudo, mas que temos recursos para enfrentar o que vier.
Se você sente que sua mente é uma aba do navegador que nunca fecha, saiba que isso não é um traço da sua personalidade. É um padrão de funcionamento que pode ser recalibrado.
Viver em alerta máximo é um fardo pesado demais para carregar sozinha. A psicoterapia oferece as ferramentas técnicas para que você possa, finalmente, baixar a guarda e descansar de verdade.
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Nota da Profissional: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo.
Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Especialista em TCC e Transtornos de Humor.
Atendimento Presencial e Online.