Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
O mês de maio chega tingido de tons pastéis, perfumes de flores e uma narrativa publicitária que exalta a "perfeição" e o "sacrifício" materno como algo quase divino. No entanto, quando fechamos a porta do consultório e as luzes da ribalta comercial se apagam, a realidade que emerge é muito mais complexa, densa e, frequentemente, silenciosa.
Como psicóloga e neuropsicóloga, acompanho diariamente mulheres que, por trás do sorriso nas fotos de redes sociais, carregam um nível de exaustão que nenhum feriado ou buquê de flores é capaz de remediar. Para a mãe de uma criança neurodivergente ou para aquela que cria seus filhos a milhares de quilômetros de sua terra natal, o Dia das Mães pode ser, paradoxalmente, um dos dias mais solitários do ano.
A sociedade adora rotular mães como "guerreiras" ou "super-heroínas". Embora pareça um elogio, na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), identificamos esse rótulo como uma faca de dois gumes. Ele alimenta uma distorção cognitiva perigosa: a ideia de que a mulher deve ser invulnerável.
Quando uma mãe internaliza a regra de que "precisa dar conta de tudo", ela entra em um estado de hipervigilância constante. Se ela não pode falhar, ela também não pode pedir ajuda, pois o pedido de auxílio é interpretado pelo seu crítico interno como um sinal de incompetência. Esse padrão de pensamento gera um ciclo de ansiedade crônica e autocobrança que é a porta de entrada para o Burnout Parental.
Pensamento Tudo ou Nada: "Se eu não sou a mãe perfeita que faz tudo organicamente e mantém a calma, eu sou um fracasso".
Regras Rígidas: O uso excessivo de "Eu tenho que..." e "Eu deveria...", que transforma a rotina em um fardo de obrigações sem prazer.
Para as mães que atendemos na Luminni, o diagnóstico de um filho (seja Autismo, TDAH ou atrasos no desenvolvimento) traz consigo o que chamamos de luto ambíguo. É o luto pelo "filho idealizado" — aquele que os pais projetaram durante a gravidez — para que possam, finalmente, enxergar e amar o "filho real".
Esse processo não é rápido e é exaustivo. A rotina dessas mães se transforma em uma maratona de terapias, fonoaudiólogos, médicos e burocracias escolares. A carga mental de gerenciar o desenvolvimento de uma criança atípica é, muitas vezes, invisível para quem está de fora, o que aprofunda o sentimento de isolamento. O esgotamento aqui não é apenas físico; é uma fadiga de decisão e de compaixão.
No projeto Terapia Sem Fronteiras, o cenário muda, mas a dor é correlata. A mãe expatriada vive a "solidão do ninho vazio de rede de apoio". No Brasil, temos a cultura da "vó", da tia, da vizinha que segura o bebê para a mãe tomar um banho. No exterior, essa rede muitas vezes não existe.
A falta de um "espelho cultural" e a barreira da língua tornam o desafio de educar ainda mais pesado. Muitas mães sentem que perdem sua identidade no país novo, tornando-se apenas "a mãe de fulano" em uma língua que não é a sua. A ansiedade aqui é alimentada pela falta de suporte e pelo medo constante de não estar integrada o suficiente para proteger e guiar os filhos nessa nova cultura.
Do ponto de vista da Neuropsicologia, precisamos falar sobre regulação emocional. O cérebro da mãe funciona como um "regulador externo" para o cérebro da criança, que ainda está em desenvolvimento.
Se o córtex pré-frontal da mãe — a área responsável pelo controle de impulsos, planejamento e calma — está operando em "modo de sobrevivência" devido ao estresse crônico, ela não conseguirá ajudar o filho a se autorregular.
Cuidar da sua saúde mental não é um ato de egoísmo; é uma estratégia biológica de sobrevivência para a família. Um cérebro descansado é um cérebro mais empático, mais criativo e mais resiliente.
Neste mês de maio, meu convite como profissional de saúde mental é para que você se dê um presente que não pode ser comprado: o direito de ser humana.
Valide seu cansaço: Sentir-se exausta não diminui o seu amor pelos seus filhos.
Troque a "Capa" pela "Conexão": É na vulnerabilidade e no pedido de ajuda que construímos conexões reais e saudáveis.
Busque suporte especializado: A psicoterapia é o espaço onde você deixa de ser "a mãe de alguém" para ser a mulher que você é, com suas dores, desejos e limites.
A maternidade real é feita de nuances, de erros, de recomeços e de muito aprendizado. Se a carga está pesada demais, você não precisa carregar sozinha. Vamos trilhar um caminho de mais leveza e menos cobrança?
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Nota da Profissional: Este conteúdo tem caráter informativo e educativo.
Raquel Martins – Psicóloga Clínica (CRP 19/004719)
Especialista em TCC e Transtornos de Humor.
Atendimento Presencial e Online.